Uma Aventura a Três

CONTOS

Uma Aventura a Três

É mesmo verdade que algumas histórias são inesquecíveis, mas nem sempre terminam como o esperado

Por Antonio C. Oliveira

Como todo homem que se preza e ostenta aquela pose de machão orgulhoso, carreguei por anos a fantasia de ter duas mulheres me satisfazendo sexualmente na cama e ao mesmo tempo. Um dia, de tanto que enchi a paciência, a minha esposa acabou concordando em viver essa “experiência” comigo. O que eu, na minha tão lesada visão à época, nunca poderia imaginar é que o resultado dessa história marcaria a minha vida para sempre.

O ano era 2012 e estava um verão quente pra caramba. Minha testosterona estava no auge também – tenho essa ligação íntima com tempo quente, sabe? Eu ia para a academia todo santo dia, à exceção dos finais de semana, e, com aquele calor todo, eu chegava a mil por hora em casa – tinha dias que a patroa fugia de mim, literalmente! Nessa maratona de sexo diário, ela começou a achar tudo meio sem graça.

Para mim, estava ótimo – com os hormônios no auge e uma parceira fiel, por que eu iria reclamar de alguma coisa?

Mas Lívia não estava contente e reclamava que eu não fazia nada para agradá-la, não comprava flores, não a levava para um jantar romântico nem a um motel luxuoso – essas coisas que as mulheres tanto valorizam, mas que nós, machos movidos a testosterona e cerveja, não damos a mínima.

Até que um dia na academia, em meio a jovens belíssimas com seus corpos perfeitos e suores deliciosos, tive uma epifania: e se, para satisfazer minha esposa, eu a convencesse a participar de um ménage? É claro que ter outro barbado na nossa cama seria impossível para mim, mas… E se fosse uma mulher? No caminho para casa, a ideia foi amadurecendo e, assim que cheguei, comecei a pesquisar o assunto na Internet.

Fiquei bastante surpreso quando descobri que existem várias acompanhantes especializadas nesse tipo de ‘serviço”. Garotas de programa que só atendem a casais, educadas, bonitas e, o melhor, completamente discretas. Encontrei até um site com uma lista das melhores profissionais, comentários de “clientes” e até um ranking de estrelinhas douradas – tudo muito organizado.

Com tudo à mão, esperei o momento certo para apresentar minha ideia a Lívia. Quando já estávamos na cama, joguei a conversa e mostrei o site. E não é que colou? A princípio, a reação dela foi de desconfiança, mas fui mostrando as fotos das garotas, os comentários, até uma matéria sobre o assunto em um site sério. Bem, resumindo, minha esposa relutou por alguns dias, mas no fim concordou com a aventura.

“Lili, apenas Lili. Corpo esguio, pernas longas e bem torneadas, pele de louça, seios médios, mamilos rosados no mesmo tom dos lábios grossos, carnudos…

Escolhemos juntos a garota. Lili, apenas Lili. Corpo esguio, pernas longas e bem torneadas, pele de louça, seios médios, mamilos rosados no mesmo tom dos lábios grossos, carnudos. Os olhos eram de um preto forte, que quase não refletia luz, lindos. O rosto longo com maçãs evidentes, envolto por um cabelo vermelho cortado na linha do queixo. Fiquei excitado assim que vi suas fotos. E parece que Lívia também, pois foi ela quem a escolheu sem titubear.

Bem, ligamos para Lili, mais de uma vez. Na quarta ou quinta, uma voz deliciosa soou no viva-voz. Conversamos abertamente, os três, sem cerimônias. E marcamos um encontro para uma noite de sexta-feira em um restaurante italiano. Perfeito.

A sexta-feira chegou e eu estava transpirando ansiedade. Fui trabalhar normalmente, mas não conseguia me concentrar. Liguei algumas vezes para Lívia, que reclamou que eu estava atrapalhando o dia dela. Aliás, ela teve um dia cheio no cabelereiro, fazendo as unhas, massagens e tudo mais – pensei até que minha fantasia ia sair bem cara no fim das contas. Bom, no fim do dia, saí meia-hora mais cedo e fui voando para casa. Quando cheguei, meu queixo caiu quando vi minha esposa – lindíssima num vestido curto, que valorizava suas curvas, e de um vermelho discreto.

Tarado como sou, sugeri que aproveitássemos o horário para uma rapidinha antes de sair, mas ela se recusou. Tomei um banho, fiz a barba e vesti uma roupa bem elegante. Queria passar uma boa impressão e, pelo sorriso de minha esposa, acho que dei um tiro no alvo. Em seguida, fomos ao restaurante.

Assim que entramos, reparei no ambiente delicado e discreto do lugar – perfeito para não despertar suspeitas e para deixar o clima propício para uma conversa mais íntima. Lili já estava lá. Linda, maravilhosa, toda apertadinha num tubinho preto que deixava seus seios volumosos, querendo saltar para fora, e contrastando com o cabelo vermelho. Aqueles olhos negros pareciam ainda maiores e hipnotizantes. Ela levantou quando nos aproximamos e nos cumprimentou educadamente com um selinho discreto e delicioso. Olhei para Lívia e ela estava visivelmente ansiosa.

Comemos, acabamos com uma garrafa de um Cabernet Sauvignon chileno, conversamos, rimos. Tudo perfeito. Saímos de lá duas horas depois direto para um motel – suíte Master, com dois andares, cama giratória, teto solar, piscina, sauna. Caro pra cacete, mas valeu cada centavo. Lili foi simplesmente… espetacular! Dançou para nós, fez o strip-tease mais excitante que eu já vi na vida, e depois puxou Lívia pela mão.

Fiquei como observador durante uns 40 minutos, vendo minha esposa se deliciar com aquela deusa. Depois que ela chegou ao orgasmo, me despi e me juntei à brincadeira. Era a minha vez. E foi bem mais do que eu esperava. Gozei duas vezes seguidas – a história da ovelhinha nova é verdade! Ainda me restou um gás para fazer Lívia chegar ao ápice mais uma vez e depois dormimos agarrados.

“Dois dias depois, eu me peguei ligando para Lili e marcando um novo encontro, só que, desta vez, sozinho…

Dois dias depois, eu me peguei ligando para Lili e marcando um novo encontro, só que, desta vez, sozinho – Lívia nem fazia ideia. Fui a uma quitinete na zona Sul, onde ela atendia. Não teve o mesmo glamour da primeira vez, mas quebrou o galho – e Lili foi espetacular mais uma vez. Fiquei apaixonado. Toda semana ia à quitinete e passava duas horinhas com ela, sempre prestativa, atenciosa. Em casa, Lívia parecia não desconfiar de nada.

Um dia, arrumei uma viagem a trabalho de fachada, para passar um fim de semana prolongado com Lili em um hotel no Rio de Janeiro. Duas semanas de planejamento, tudo certo na empresa, aprovação da patroa e agenda fechada com minha garota de programa preferida. A quinta-feira chegou, me despedi de Lívia com um beijo apaixonado na porta de casa. Ela pediu que eu ligasse assim que chegasse no hotel. Saí de lá pro aeroporto meio que de consciência pesada – minha esposa era uma mulher especial, de verdade. Mas homem é homem, fazer o quê?

O horário de embarque encerrou e nada de Lili aparecer. Liguei umas dez vezes para ela e só recebi uma mensagem de texto avisando que ainda estava no trânsito. Como sou um cara controlado, transferi a passagem dela para o voo seguinte e acertei de nos encontrarmos no hotel – eu não podia deixar de seguir no voo agendado por causa da marcação da empresa.

Duas horas depois, eu já estava no hotel em Copacabana. Liguei para Lili e ela disse que já estava no aeroporto, prestes a embarcar. Fiquei aliviado. Lembrei então que tinha que ligar para minha esposa. Estranhamente, Lili não atendia – nem no celular, nem em casa. Achei que, devido ao horário, ela deveria estar dormindo. Melhor, pelo menos não ia encher meu saco.

Amanheceu. Acordei ainda vestido, sentido dores nas costas. Nada de Lili. Liguei, mandei mensagens e nada. Liguei na companhia aérea em busca de informações do voo, mas só me confirmaram que o avião havia feito o voo normalmente. Estava de mão atadas. Tive que respirar fundo, engolir o desespero e trabalhar – tinha uma reunião no começo da tarde que eu não poderia faltar de jeito nenhum. Durante todo o dia tentei falar com Lili. E nada. A noite chegou e eu continuava sem notícias dela. Então a ficha caiu. Havia tomado o maior toco da minha vida. Puta safada e canalha. Eu tinha transferido R$ 1.500 para a conta dela 24 horas antes.

Na manhã do sábado, liguei para meu chefe, disse que não estava me sentindo bem e que ia voltar. Ele foi compreensivo e aceitou sem problemas. Fechei a conta do hotel e fui ao aeroporto. Mais uma surpresa: o único voo com vaga para São Paulo seria à meia-noite. Furioso, comprei a passagem e fiquei vagando pelo Galeão o dia inteiro sem nada para fazer.

Cheguei em casa por volta das duas horas da manhã. Diante da porta, lembrei que não havia falado com Lívia em momento algum. Ela devia estar furiosa – como reagiria à minha chegada repentina? Entrei em casa silenciosamente, tentando não chamar atenção. Larguei a mala em qualquer lugar e fui direto pro banheiro. Tomei uma ducha de quase uma hora, tentando relaxar, e só então vi que não tinha nenhuma toalha no banheiro.

Saí de lá todo molhado, pisando nas pontas dos pés, e fui até nosso quarto. No escuro, tateei as paredes até chegar ao guarda-roupas, abri a porta cuidadosamente e… não havia nenhuma toalha. Olhei em volta e percebi que parecia não haver mais ninguém no quarto. Estiquei o baço até o interruptor e acendi a luz. Lívia não estava lá. A cama estava, inclusive, sem lençóis. Abri todas as portas do guarda-roupas imediatamente. Não havia nada dentro, nem mesmo as minhas roupas. Corri pela casa acendendo todas as lâmpadas. À exceção do sofá surrado na sala, não havia mais nada, nenhuma mobília, pratos, talheres, nada na despensa…

Lívia tinha ido embora.

Três meses se passaram até que eu tivesse alguma notícia de minha esposa. Um detetive que conseguiu localizar uma página em uma rede social de um perfil que batia com o dela, mesmo com o nome diferente. Caí em lágrimas quando ele me mostrou a página. “Andrea Giácomo”, italiana de Génova. Mas era mentira. Era a minha Lívia. Ao lado dela, na maioria das fotos, uma ruiva de olhos negros e pele clara sorria alegremente. Numa das fotos, abraçadas apaixonadamente, elas pareciam me encarar com um sorriso discreto nos lábios.

Chorei feito uma criança por dois dias seguidos.

A história da ovelhinha nova é realmente verdade. Pode acreditar.