Entrevista Rogê Ferro

CULTURA

Entrevista
Rogê Ferro: Um homem de família?

Aos 43 anos, o ex-astro pornô e homem das duas mil mulheres jura de pés juntos que é mesmo um bom moço e se prepara para voos mais ousados – o lançamento de uma autobiografia e um filme baseado em sua vida.

Por Antonio C. Oliveira

Para falar a verdade, entrevistar o ex-ator pornô Rogê Ferro não me pareceu um grande desafio. Conheço o neto de dona Nercelina há pelo menos uns dez anos e acompanhei boa parte de sua estrada árdua no pior período do mercado pornográfico brasileiro. E, independentemente da situação em que se encontrava, Rogê sempre se mostrou um cara bem humorado e boa praça – aliás, considero essa uma de suas maiores qualidades.

Qual não foi a minha surpresa ao reencontrá-lo e descobrir um cara ainda mais tranquilo e transbordando simpatia – tudo bem, tem seu lado negativo, aquele sotaque de malandro carioca continua arrastado que é uma beleza. Mas a conversa com o agora empresário Rogê da Fonseca foi mesmo muito boa.

Completamente à vontade, ele falou abertamente de seus anos de chumbo, das escolhas difíceis, da família e de como está tentando reconstruir sua imagem sem renegar seu passado explícito –  uma autobiografia e um longa-metragem contando os detalhes mais picantes de sua vida estão a caminho.

Confira abaixo os melhores momentos de um papo bem descontraído.

Bem, para começar, faça um resumo de sua vida até aqui – se é que isso é possível.

Resumir é meio difícil mesmo. Mas vamos lá. Eu sou Rogê da Fonseca, mais conhecido como Rogê Ferro. Fui ator pornô por 14 anos, gravei mais de duas mil cenas com mulheres do mundo todo, fui premiado por esse trabalho e perdi as contas de quantos filmes eu fiz. Agora estou aposentado do mercado pornô, bem casado e começando um novo empreendimento.

Quer dizer que os tempos de pornografia ficaram mesmo para trás?

Ficaram, ficaram. Oficialmente, eu me aposentei em 2012, mas gravei uma ou outra cena eventualmente para ganhar um trocado. Só que agora parei de vez e estou em outra por completo.

O que mudou? A indústria pornô se acabou?

Olha, em se tratando de produções brasileiras, está tudo parado há um bom tempo. Há uma ou outra produtora investindo em vídeos para a internet, mas nada que se compare ao mercado de dez, 15 anos atrás. As produções internacionais e a internet inviabilizaram a produção nacional.

As produtoras não se adaptaram, é isso?

Sim, com certeza. E também o fato de ser um mercado fragilizado. Nunca houve indústria, apenas mercado, Nunca houve união de produtores, diretores, atores. Não avançamos nesse sentido. Então, quando o tempo ruim chegou, pegou praticamente todo mundo.

Nossa, é uma pena mesmo. Lembro que muitas locadoras praticamente sobreviviam por causa dos filmes pornôs

Pois é, mas a pirataria pesada acabou com todas elas. É lamentável.

“Minha mãe me fez prometer que eu não faria filme gay, mas por uma questão de carreira mesmo eu recusei todos os convites.”

E você, tem orgulho de sua carreira? Consegue olhar para trás e dizer “valeu a pena”?

Claro. Eu entrei nessa com o apoio incondicional de minha família e de meus amigos. E entrei para ser profissional, para descontruir a imagem marginal que muitos tinham do pornô nacional. Acho que me dei bem. Fiz filmes para o mercado internacional, gravei com algumas das mulheres mais lindas do Brasil, conheci pessoas fantásticas. Além do que, construí uma casa pra minha mãe, comprei meu apartamento, ajudei meus amigos. E parei na hora certa.

E essa história de duas mil mulheres, é verdade mesmo ou só marketing?

As duas coisas, rapaz. (risos) Veja bem, eu comecei a fazer filmes em 1998, oficialmente, e só levo em consideração os números a partir desse ano. A verdade é que a conta pode ser ainda maior, porque eu perdi a noção de quantas produções participei. Por exemplo, recentemente, descobri que tenho mais filmes internacionais catalogados do que nacionais. E se contar que eu chegava a fazer até três, quatro cenas por filme…

É realmente incrível! E as propostas para produções gays, apareciam?

Sempre, Principalmente para filmes internacionais, europeus. Eles têm um público grande por lá. Mas eu sempre recusei.

Por causa daquela história da promessa para sua mãe?

(risos) Também, também. Minha mãe me fez prometer que eu não faria filme gay, mas por uma questão de carreira mesmo eu recusei todos os convites. Na verdade, eu tracei uma meta profissional e fazer filmes gays estava fora de cogitação. O mercado já discriminava muito a profissão. Se eu fizesse um filme gay poderia perder o público que procurava meus filmes, ficar marcado.

E as propostas indecentes, eram muitas?

Muitas. Propostas indiscretas existem em qualquer profissão, não só na de ator pornô. Mas algumas realmente davam aquela balançada no ego.

E você aceitou alguma – ou algumas?

Isso eu só vou contar no meu livro. Sai este ano. Vai ser uma bomba.

“Propostas indiscretas existem em qualquer profissão, não só na de ator pornô. Mas algumas realmente davam aquela balançada no ego.”

Tem histórias cabeludas, envolvendo gente conhecida, celebridades?

Rapaz, tenho tanta história legal pra contar que daria para escrever uma série. Mas vamos deixar tudo a seu tempo.

Fala-se muito que nos bastidores do pornô rolava muita droga e prostituição. Você se viu em alguma situação desse tipo?

Várias. Muita gente boa se perdeu por causa de cocaína, de crack. Tem alguns casos conhecidos, como o de Nikki [Rio, atriz pornô], que morreu em circunstâncias misteriosas e nada concreto foi descoberto. Foi muito triste. Ela era muito querida. Eu sempre mantive uma postura muito séria em relação a isso, até porque tive um exemplo de como a droga pode destruir uma pessoa dentro de minha família.

Eu vi você no [programa de TV] Amor & Sexo junto com Mônica Mattos. É verdade que ela começou com você?

E eu nem me lembrava. (riso) Para você ver como são essas coisas. Muitas atrizes que ganharam nome nesse meio começaram comigo, muitas mesmo. Mas eu nunca me liguei muito nessas coisas, de lembrar das pessoas. Outro dia encontraram um filme que eu fiz com o Zé do Caixão. Eu nem recordava disso. É engraçado.

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Fale um pouco dos projetos para 2015. Tem o livro e o que mais?

Bom, além do livro, tem o filme, que será estrelado por Igor Cotrim, um cara supertalentoso, que vestiu a camisa desse projeto que já vêm de um processo longo. O elenco está fechado e as parcerias são maravilhosas. Infelizmente não posso falar muita coisa, estou proibido. (risos) Também estou abrindo uma empresa com meu irmão Marcelo, lá em Petrópolis, e quero produzir um documentário sobre meu amigo Fábio Scorpion.

Que legal! Scorpion foi um dos grandes nos bons tempos do pornô, não?

Sim, talvez o maior. Mas para mim, ele foi muito mais, um mentor, um amigo, o melhor da nossa época. E ele era uma pessoa fantástica.

Então, você vai se arriscar atrás das câmeras também?

Sempre estive. Dirigi muitos filmes pornôs. A diferença agora é que é um projeto com outro foco, outra pegada, mais… respeitável, vamos dizer assim.

A história de Scorpion não é muito parecida com a sua?

Em alguns pontos, sim, mas seguimos caminhos quase que opostos no pornô. Fábio era um cara sem limites, que via nos filmes uma via de escape, uma maneira de expor o que pensava a respeito das coisas. Ainda assim, era um ser humano sensacional. Quero mostrar isso nesse documentário. Que ninguém se torna bom ou mau porque escolheu ser ator pornô. A maioria dos atores e atrizes com quem trabalhei suavam muito (sem trocadilho) para sustentar, na maioria das vezes, toda a família, pai, mãe, irmãos.

Mas você não acha que a linha é muito tênue entre essa profissão e a prostituição, por exemplo?

Sim, acho, mas isso não significa muita coisa. Ninguém deixa de ser humano por se prostituir. É uma escolha de cada um. Cada pessoa tem suas razões para entrar numa dessas, mas não vai se tornar bandido por isso.

E em relação ao coração, como você está?

Rapaz, acho que estou bem, viu? (risos) Encontrei minha alma gêmea há seis anos e a partir daí a minha vida veio mudando por completo. Só coisas boas me aconteceram desde então. E temos muitos planos ainda, inclusive, ter um filho.

Para terminar, Rogê Ferro está morto e sepultado?

Não, acho que não. Para mim, o personagem já teve seu tempo, mas para o público, ele está por aí nos filmes e vídeos espalhados pela internet, alegrando a vida e levando prazer a muita gente. Pelo menos, espero (risos).

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Plugin_AntonioAntonio C. Oliveira é jornalista, redator e roteirista. Sergipano radicado em São Paulo desde 2002, trabalha como desenvolvedor de conteúdo para cinema, televisão, internet e celular. Escreve todas as sextas-feiras no Clube Sexy.